Por Vanessa Piazza
Foto Crédito: Acervo Baque Caipira
Aos 13 anos de sua história, o Baque Caipira, grupo percussivo piracicabano de maracatu de baque virado, festeja com muita animação a vida e a sabedoria ancestral de uma das pessoas mais importantes da cidade, a ilustre piracicabana Dona Odette Martins Teixeira, mais conhecida como Mama África ou Mamãe África, que nasceu em 1933 na rua Riachuelo e que até hoje, aos 92 anos, inspira a todos ao seu redor, com muita elegância, vitalidade e positividade. Nesse ano, o Baque Caipira convida toda população para prestigiar a Imperatriz da Cultura no Cortejo de pré-carnaval que acontece no domingo, dia 8, a partir das 15h, com concentração na Praça Tibiriçá, no Centro. O evento é gratuito e livre para todos os públicos.
Mama África é uma dessas figuras que demora séculos para que se encontre outra parecida pisando o chão dessa Terra, sendo uma honra poder compartilhar esse tempo, como suas e seus conterrâneas(os) e contemporâneas(os). Ela é batuqueira do Batuque de Umbigada; é carnavalesca, foi uma das fundadoras da Voz do Morro, bloco que nasceu na Riachuelo, e teve sua importância reconhecida por diversos escolas de samba da cidade, como Portela, Zum Zum, Caxanga, Ekperalta, União da Vila e Estrela de Prata; além de ser reconhecida no esporte, como grande atleta que elevou o nome da cidade e do XV de Piracicaba com inúmeras vitórias e conquistas, como o feito de figurar no 1º lugar no ranking sul-americano 90+ de atletismo e em 4º lugar no ranking mundial.
Seu apelido nasce justamente dessa presença forte, maternal e ancestral, que remete à África como matriz cultural e simbólica. Hoje, aos 92 anos, Mama África é mais do que atleta ou dançadora: ela é patrimônio humano vivo, expressão da força das mulheres negras, da cultura popular e da possibilidade de envelhecer com dignidade. Sua história inspira não apenas pelo que conquistou, mas pelo que representa: resistência e exaltação da vida!
Quem a conhece, vai entendendo aos poucos que Mama tem conexões especiais entre o mundo terreno e o sagrado, com a natureza e as sutilezas, mistérios e encantos da vida. Não à toa, foi convidada em 2009 para participar do plantio de uma árvore Baobá na Praça da Saudade. O Baobá é uma espécie nativa da África e foi plantada em Piracicaba em uma solene cerimônia em celebração ao Dia da Consciência Negra. Conhecida como “Árvore da Vida”, é venerada em várias culturas africanas e considerada uma das árvores mais misteriosas da Terra. A árvore sagrada, hoje com 16 anos, pode ser vista em frente ao Cemitério da Saudade, ao lado da estátua do compositor Cobrinha.
Com a proteção de Mamãe África, o Baque Caipira pisa fundo e marca mais uma vez o chão dessa cidade ao percorrer caminhos que apontam para as histórias caipiras de resistência dos povos negros e indígenas que habitavam e habitam Piracicaba.
O início do cortejo se dá na praça Tibiriçá, que é um antigo cemitério de negros escravizados. Na sequência passa pela Igreja de São Benedito, patrimônio da comunidade negra de Piracicaba, cujo patrono é o Santo Preto. E, nesse 2026, com contornos que ganham beleza pelas narrativas de vida de Dona Odette que, ainda na década de 1930, foi vestida de anjo, fotografada e saiu na procissão da Igreja de São Benedito, como uma homenagem ao milagre e à proteção que recebeu do Santo Preto, que a salvou de uma cobra jararacuçú de 1,50 metros que estava pronta para dar um bote, na então menina de cinco anos.
A história viva nos acompanha até a finalização do percurso que acontece no Largo dos Pescadores, território do povos nativos, os paiaguás, e também local de rotas de fuga de pessoas escravizadas. Piracicaba permanece viva, pois um povo vivo é um povo com muitas histórias para contar.
O Cortejo de pré-carnaval do Baque Caipira é uma grande festa popular em exaltação à cultura afro-caipira expressa no território piracicabano. Conduzido pelas batidas do maracatu de baque virado, integra ritmo, beleza e alegria na formação de um corpo percussivo junto à uma corte real que apresenta os elementos e personagens característicos das nações de Pernambuco, porém, reinventados a partir da linguagem e referenciais locais.
O corpo percussivo é formado por cerca de 40 batuqueiras e batuqueiros, distribuídos nos instrumentos: agbês, ganzás, alfaias, caixas e gonguê. Já a corte real é composta por porta-estandarte, dama do paço, baianas, caboclos, lanceiros, catirinas, trabalhadores rurais, vassalos, baiana rica, orixás e a realeza. Como rei, o representante do Batuque de Umbigada, Pedro Soledade; como rainha, Ediana, do Samba de Lenço; do Hip Hop, a princesa Mayra Kristina Camargo e o príncipe Bira, como embaixador Antonio Filogenio Junior. Essas são algumas das personalidades que desfilam reafirmando as identidades culturais piracicabanas.
A concentração é às 15h, na Praça Tibiriçá; a saída do Cortejo às 16h, com previsão de chegada no Largo dos Pescadores às 18h, quando a festa continua com a discotecagem da DJ Paina. A realização do evento é do Baque Caipira e do Coletivo de Blocos, com apoio da Prefeitura de Piracicaba, Piracerva e Escola Morais Barros.
O Baque Caipira é um grupo percussivo piracicabano que tem como referência o Maracatu de Baque Virado. Fundado em 2013, tem se constituído como um espaço artístico, educacional e cultural de valorização e difusão da cultura brasileira. O grupo, que é um coletivo independente formado por cerca de 40 pessoas, tem desenvolvido uma linguagem própria em relação às composições rítmicas, e integra às batidas do ritmo nordestino, um sotaque afro-caipira, característico das manifestações populares da região do interior paulista.
Serviço: Cortejo de pré-carnaval do Baque Caipira, dia 8, domingo, às 15h, com concentração na praça doutor Tibiriçá (rua do Rosário, 618, Centro). Saída do Cortejo às 16h, e às 18h, chegada no Largo dos Pescadores, com discotecagem da DJ Paina. Evento gratuito e livre para todos os públicos.