Animais comunitários
Ivana Maria França de Negri
Quando estive na Turquia, fiquei encantada com o tratamento que dão aos animais comunitários!
Entre paisagens mágicas, onde reinam sultões, califas, dançam lindas odaliscas e ecoam os sons dos minaretes das mesquitas chamando os fiéis à oração, um fato me chamou a atenção. Centenas de animais perambulam pelas ruas e praças de Istambul, pela capital Ankara, em Pamukkale, Troia, Éfeso, Pérgamo, Capadócia, enfim, em todo o território turco.
Nos cemitérios, em restaurantes, dentro de museus, igrejas e mesquitas, em lojas, hotéis cinco estrelas, shoppings, e até nos sítios arqueológicos, há cães e gatos por toda parte. Gordos, sadios, bem cuidados e extremamente mansos, sinal de que ninguém os molesta, ao contrario, vi potinhos de água e ração em lugares diversos. Em alguns locais há postos de alimentação, colocados pelas prefeituras, onde as pessoas podem abastecer com ração e água. Fotografei tudo para o caso de alguém não acreditar.
Muita gente carrega ração na bolsa quando sai às ruas, e vai distribuindo. Nas Mesquitas, as pessoas precisam tirar os sapatos e cobrir a cabeça e braços em sinal de respeito para entrar, mas gatos entram e saem livremente e até dormem sobre os tapetes persas de seda. Ninguém os espanta!
As prefeituras das cidades recolhem os gatos, castram, vacinam, e os devolvem ao mesmo local com um picote na orelha esquerda alertando que já foi castrado. São chamados de animais comunitários, pois é a comunidade que cuida deles. Se algum adoece, a prefeitura é acionada, trata, e o leva ao local de origem. Os cães recebem um chip de identificação na orelha e também são castrados e vacinados
Os pombos, que proliferam em todas as praças, têm comedouros próprios e há chafarizes sempre jorrando água. Em muitos locais vi casinhas coloridas com mosaicos florais, construídas para eles.
Fiquei pensando que aqui em Piracicaba os animais não são assim bem vistos, pois vira e mexe ficamos sabendo que são envenenados e mortos e muita gente implica com os pombos da praça, com os gatos do cemitério, com as capivaras, enfim, parece que animais não são bem-vindos em lugar algum.
Eu, como amante assumida dos animais, fiquei até com uma ponta de inveja desse tratamento que dão a eles na Turquia.
O caso do Orelha, cãozinho comunitário de uma praia de Santa Catarina, causou comoção nacional. Era um idoso de dez anos, bem cuidado, vacinado, vivia livre e feliz, acompanhava as pessoas nas caminhadas, entrava no mar, assistia casamentos, tinha até casinha e sempre lhe davam comida, petiscos e água. Mas seres das trevas, na calada da noite, o torturaram por horas. E o fizeram por “puro prazer”. Os suspeitos são cinco adolescentes, e por serem menores de idade, entre 16 e 17 anos, certamente, a justiça não se fará.
Concluo que o problema, não é ter animais comunitários, o problema é ter humanos demoníacos e sádicos! Muita gente não pode levar pra casa, ou porque já tem muitos, ou mora em apartamento, ou não tem quintal, mas gostam de cuidar e alimentar os comunitários. Até levam em veterinário, castram, dão carinho. O Orelha era feliz!
Pensando comigo na célebre frase de Humboldt: “Avalia-se o grau de civilidade de um povo pela maneira como trata seus animais”. No quesito civilidade, estamos ainda na Pré-História, pois muitos ainda agem como Neandertais...
Ivana Maria França de Negri é escritora