Onde ninguém se conhece, mas todos se cruzam
Ronaldo Castilho
A solidão urbana é um paradoxo do nosso tempo. Nunca estivemos tão conectados, tão rastreáveis, tão disponíveis uns aos outros por meio de telas luminosas que cabem no bolso e, ainda assim, tão sós. Nas cidades, a multidão deixou de ser sinônimo de companhia. O metrô lotado, o trânsito congestionado, as filas intermináveis e os prédios que se empilham rumo ao céu não diminuem a sensação de vazio; às vezes, a amplificam. A vida urbana, com sua pressa crônica e seu ruído permanente, produz um tipo peculiar de isolamento: aquele em que se está cercado de gente, mas distante de vínculos. É a solidão sem silêncio, a solidão barulhenta, a solidão que caminha apressada pela calçada olhando para baixo, onde o celular substituiu o olhar do outro.
Há quem diga que a solidão é um mal necessário, um espaço de recolhimento, uma pausa para ouvir a própria consciência. De fato, o isolamento voluntário já foi celebrado por pensadores e artistas como condição para a reflexão profunda. Henry David Thoreau, em seu retiro às margens de um lago, defendia a necessidade de se afastar do excesso para reencontrar o essencial. Blaise Pascal afirmava que “todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade do homem de permanecer sozinho em um quarto”. Mas a solidão urbana contemporânea não é esse recolhimento fértil; é uma ausência involuntária de pertencimento. Não é escolha, é consequência. Não é silêncio produtivo, é ruído interior.
A cidade moderna foi desenhada para a eficiência, não para o encontro. A arquitetura privilegia o fluxo, não a permanência. As praças, antes espaços de convivência, foram substituídas por shoppings climatizados onde as pessoas se cruzam sem se ver. Os vizinhos, antes cúmplices da rotina, tornaram-se estranhos que compartilham paredes, mas não histórias. A pressa crônica tornou a convivência um luxo. Conversar sem olhar o relógio virou extravagância. Ouvir alguém até o fim tornou-se raro. Nesse cenário, a solidão se instala como uma espécie de poeira fina que se deposita em tudo: no humor, na saúde mental, na forma como nos relacionamos com o mundo.
É curioso notar que, quanto mais a sociedade valoriza a exposição, mais as pessoas se sentem invisíveis. As redes sociais oferecem vitrines, mas não abraços. Likes não substituem o calor de uma conversa franca. A comparação constante com vidas editadas gera um sentimento de inadequação que aprofunda o isolamento. Somos espectadores da felicidade alheia, mas protagonistas de um cotidiano que parece menos interessante do que o dos outros. A solidão, nesse contexto, não é apenas física; é existencial.
Essa sensação se agrava quando observamos aqueles que ocupam posições de liderança. Muitos afirmam que os cargos de presidente da República, governadores, prefeitos e até monarcas são profundamente solitários. O peso da decisão pública exige, muitas vezes, um recolhimento que não pode ser compartilhado. O líder, cercado por assessores, seguranças, protocolos e cerimônias, frequentemente se encontra isolado no momento crucial: a hora de decidir. Ali, não há multidão. Há consciência. E a consciência não se divide.
Nicolau Maquiavel já observava que governar implica tomar decisões que não agradam a todos e, às vezes, a quase ninguém. Hannah Arendt refletia sobre a responsabilidade individual diante do poder e como essa responsabilidade pode afastar o governante da vida comum. A solidão do poder não é apenas geográfica, é moral. É a solidão de quem precisa escolher entre o possível e o ideal, entre o urgente e o importante, entre o popular e o necessário.
A história está repleta de relatos de líderes que experimentaram esse isolamento. Abraham Lincoln, durante a Guerra Civil americana, escrevia sobre o peso emocional das decisões que tomava. Winston Churchill atravessou noites insones ponderando estratégias que afetariam milhões de vidas. Dom Pedro II, apesar de cercado por uma corte, era descrito como um homem introspectivo, muitas vezes recolhido aos livros, talvez buscando na leitura uma companhia que a política não oferecia.
Essa solidão do poder dialoga com a solidão urbana do cidadão comum de uma forma curiosa. Ambos estão cercados de gente e, ainda assim, isolados. O líder porque não pode dividir o peso da decisão; o cidadão porque não encontra com quem dividir o peso da vida. Em ambos os casos, há uma sensação de deslocamento. O primeiro vive acima da multidão, o segundo perdido nela.
Jean-Paul Sartre dizia que estamos “condenados à liberdade”, e essa liberdade implica solidão. Decidir é um ato solitário. Viver também. A cidade contemporânea, ao multiplicar as escolhas, também multiplica as angústias. Onde morar, onde trabalhar, com quem se relacionar, o que consumir, o que pensar, tudo exige decisões constantes. E cada decisão nos afasta de caminhos possíveis, gerando a sensação de perda permanente.
No entanto, a solidão não precisa ser destino. Zygmunt Bauman falava da “modernidade líquida”, em que os vínculos se tornam frágeis e descartáveis. Mas a fragilidade não é inevitável; é cultural. Podemos reaprender a cultivar relações mais profundas, mais duradouras, mais humanas. Podemos desacelerar. Podemos olhar para o lado no elevador. Podemos transformar desconhecidos em conhecidos. Pequenos gestos têm força simbólica imensa em ambientes onde o anonimato reina.
A cidade pode ser hostil, mas também pode ser acolhedora, dependendo de como escolhemos habitá-la. A solidão urbana é uma epidemia silenciosa porque não deixa marcas visíveis. Não aparece em exames laboratoriais. Não gera manchetes. Mas corrói por dentro, lentamente. Afeta a saúde mental, a autoestima, a disposição para a vida. E, paradoxalmente, quanto mais se fala em conexão, menos se fala em presença.
Talvez a saída esteja em recuperar algo que os antigos valorizavam: a convivência real. Aristóteles afirmava que o ser humano é um animal político, no sentido de viver em comunidade. Fora dela, dizia ele, somos ou deuses ou feras. A solidão urbana nos aproxima perigosamente dessa condição limítrofe. Precisamos reaprender a ser comunidade.
No fim das contas, a solidão que atinge tanto o cidadão anônimo quanto o governante poderoso tem a mesma raiz: a dificuldade de compartilhar a própria humanidade. A decisão solitária do líder e o silêncio solitário do morador da metrópole são faces diferentes do mesmo fenômeno. Ambos carecem de escuta. Ambos precisam de vínculos.
Reconhecer a solidão urbana como um problema coletivo é o primeiro passo para enfrentá-la. Não se trata apenas de políticas públicas, embora elas possam ajudar com espaços de convivência, cultura e lazer. Trata-se de uma mudança de postura individual e cultural. De lembrar que, no meio da multidão, ainda podemos escolher não ser estranhos uns aos outros.
Porque, no fim, a solidão mais cruel não é a de estar sozinho. É a de não se sentir pertencente a lugar nenhum. E essa, nas cidades de concreto e vidro, tornou-se assustadoramente comum.
Ronaldo Castilho é Jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. É licenciado em História e Geografia, bacharel em Teologia e Ciência Política, e possui MBA em Gestão Pública com ênfase em Cidades Inteligentes.