Capivaras
Ivana Maria França de Negri
Enquanto pastam tranquilas, as capivaras não sabem que estão sendo julgadas e condenadas, simplesmente por existirem e portarem carrapatos. Eu não pretendia escrever novamente sobre o assunto, mas confesso que às vezes é difícil ficar calada. Quando escrevo sobre pombos, gatos, cães, sempre alguém de mal com a vida diz: “leve todos para sua casa”...
Carrapatos não infestam exclusivamente capivaras. Também infestam cavalos, bois, cães, aves em geral, animais silvestres como saruês, veados e até lagartos.
Existe em Piracicaba uma instituição de tradição centenária, com seus mestres e doutores, cientistas laureados, pesquisadores famosos no exterior, biólogos, engenheiros, estudiosos em todas as áreas ambientais. Será que não saberiam de alguma maneira de controlar os carrapatos? Ou poderiam sugerir algum tipo de controle ou manejo?
Muitos articulistas geralmente distanciam-se de assuntos polêmicos porque não gostam de se expor à opinião pública e também não querem se tornar “malditos” ao defenderem pontos de vista que divergem do que pensa a maioria. É muito mais cômodo escrever sobre banalidades, pores de sol, falar de política, artes e economia, ou enaltecer quem pouco merece. Causas ecológicas, só mesmo os idealistas e apaixonados pelo tema ousam contestar e são chamados de radicais.
É muito mais fácil achar que se pode resolver os problemas à moda de Hitler. Os carrapatos se multiplicaram? Vamos matar as capivaras! Existem muitos cães e gatos abandonados? Vamos sacrificá-los! A praça está tomada pelos pombos? Vamos eliminá-los! Bandidos dominam a sociedade? Pena de morte para eles! Idosos incomodam? Internemos num asilo. Há muitos menores nos semáforos da cidade? Internato para eles!
E assim caminha a humanidade... Gasta-se muito construindo cadeias e instituições sócio-educativas ao invés de investir mais na educação e na qualidade de vida das pessoas. No quesito saúde, como não se investe em campanhas de prevenção e orientação, acaba-se tendo que construir mais e mais pronto-socorros, tendo que ampliar os leitos hospitalares para atender a população.
Isso tudo me faz lembrar de uma fábula que li certa vez, de um rei muito prepotente, dotado de parca sabedoria. Quando soube que um de seus súditos havia falecido de leishmaniose e suspeitava-se que um cão o havia infectado, imediatamente ordenou que fossem exterminados todos os cães da cidade.
Tempos depois, os gatos se multiplicaram bastante, pois, na ausência dos cães, tornaram-se animais de estimação das pessoas. Um dia, houve um caso isolado de toxoplasmose e os gatos foram acusados de transmitir a doença. Nova ordem: exterminar todos os gatos.
Nos anos seguintes, os ratos, sem predadores naturais, multiplicaram-se tanto que não houve meio de se livrarem deles, mesmo sendo mortos aos milhares em grandes fogueiras. E a peste se alastrou e infectou todos os moradores daquele lugar, inclusive o incauto monarca. E nunca mais se ouviu falar daquele reino que simplesmente desapareceu do mapa juntamente com seus habitantes e o pouco sábio e opressor monarca.
Quem sabe essa historinha possa servir para a nossa reflexão ...
Ivana Maria França de Negri é escritora