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Coluna: Entre Linhas com Ivana Negri

Publicada em: 05/03/2026 15:04 -

                                    Emília, a precursora da emancipação feminina

     Ivana Maria França de Negri

 

Muitas personagens femininas têm lugar de honra no universo da literatura. Amélia, Capitú, Chica da Silva, Marguerite D´Autrice - a dama das Camélias, a escrava Isaura, Macabéa, Iracema, Dona Flor, Joana D´Arc, Gabriela, e tantas outras. Não desmerecendo nenhuma delas, na minha opinião, nunca houve alguém tão adorável como a boneca Emília, inspirada criação de Monteiro Lobato, a que não tinha “papas na língua”.

No início, apenas uma boneca de pano muda e estática, mas depois de tomar as tais pílulas falantes do doutor Caramujo, abriu a “torneirinha de asneiras” e começou a falar como uma matraca. Tagarela, ela questionava, teimava e não desistia nunca. Petulante, desafiava todas as normas e viveu sempre à frente do seu tempo.

Não era linda como as bonecas de louça, louras e de olhos azuis, mas sim uma espevitada e impertinente bonequinha de trapo, nas palavras do próprio Lobato.

Falava pelos cotovelos e dizia o que vinha na telha. Interesseira que só ela, casou-se com o Marquês de Rabicó apenas para ganhar o título de nobreza. E virou Marquesa, tudo o que queria. A boneca de retalhos, confeccionada pela Dona Benta para a neta Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, mais precisamente Narizinho, era a própria representante do movimento feminista, antes mesmo dele se iniciar.

Dizia de si mesma: “eu sou a independência ou morte!”. Filósofa, costumava afirmar que a verdade era uma espécie de mentira tão bem contada que ninguém desconfiava. Não tinha medo de nada, e sempre se metia onde não era chamada.

Ao dar o dom da fala à Emília, Monteiro Lobato estava usando uma espécie de comunicação universal para mandar suas mensagens, sua visão de mundo para as crianças.

Uma das obras-primas de Lobato, “Emília no País da Gramática e Aritmética da Emília”, traz a boneca montada no rinoceronte, o paquiderme gramático que tinha respostas para tudo. Ela promove uma reforma ortográfica e encanta as crianças ensinando as regras de português. E a matemática, matéria nem sempre apreciada pela garotada, transforma-se numa gostosa brincadeira no pomar, sendo que o quadro-negro, onde ela fazia as contas na ponta de um giz, era o próprio couro do rinoceronte Quindim.

E quando ela resolve ditar suas memórias ao Visconde de Sabugosa?  A terrível boneca de trapo – talvez aí resida a origem da expressão popular “língua de trapo”, falava  e filosofava sobre tudo, o que muitas vezes fazia dona Benta murmurar para a tia Nastácia: “ que diabinha!”.

Ao visitar os vícios de linguagem encarcerados por Dona Sintaxe, a “impagável” Emília revolta-se ao encontrar o Neologismo entre eles e o solta.

        -  “ Não mexa, Emília – grita Narizinho. Não mexa na língua que vovó fica danada...” 

         - Mexo e remexo! replica a boneca batendo o pezinho – e foi e abriu a porta e soltou o Neologismo, dizendo: -“ Vá  passear entre os vivos e forme quantas palavras novas quiser!”

Para encerrar, cito um trecho de Rachel de Queiroz sobre minha personagem predileta: “Emília não tem medo de ninguém; nem da vida, porque boneca propriamente não vive, nem da morte, porque boneca não morre. Não admite leis, nem regras, nem gramática. Não respeita cara nem autoridade. Bruxa de pano com olhos de linha preta, assim mesmo acha que tem tudo, não quer ouro nem fortuna, nem amantes, nem poder. Só quer aventuras e o direito de abrir a boca e opinar sobre o que bem entende. Emília, meu exemplo e minha inspiração, tantas vezes meu raio de sol asneirento, faísca de liberdade, de coragem e de insolência, minha mestra e meus amores - Emília, Marquesa de Rabicó...”

 

Ivana Maria França de Negri é escritora

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