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Coluna: Adriana Passari fazendo histórias

Publicada em: 06/03/2026 07:58 -

Por Adriana Passari - @adrianapassari

 

As várias mortes de Antonio Carlos

 

Antonio Carlos era um senhor de idade, nem muito ranzinza e nem muito simpático. Vivia sua vida sem muitos prazeres, mas era apegado às caminhadas diárias. Nesses momentos demonstrava uma disposição de menino.

Sua vida teve alegrias e tristezas, perdeu os pais muito jovem, porém não teve tempo nem para abandono nem desamores, foi logo adotado por familiares que lhe entregaram carinhos e cuidados. Sua maior qualidade era a beleza que saltava aos olhos. Desde tenra idade até a maturidade era admirado por todos que o cercavam.

Nunca passava despercebido, mesmo agora que não enxerga e não ouve muito bem. Sua primeira morte foi descoberta pela irmã mais velha. Ao chegar em casa, ele estava estendido no chão do quarto, inerte. A irmã chamou, gritou, atirou-se ao solo procurando sinais vitais e nada… ela pranteou a perda tão dolorida e já ia chamando ajuda aos quatro ventos para o socorro final.

Antes ainda que ela conseguisse se levantar, com as pernas bambas pelo susto, o bonito abriu os olhos como quem desperta de um sono profundo, espreguiçou-se e saiu andando sem dar bola para o desespero ao seu redor. Tratou o assunto como caso corriqueiro e seguiu vivendo.

A segunda morte de Antonio foi a tia quem registrou. Ela entrou na casa da família onde o velho estava sozinho. Ela chegou ruidosa e agitada como de costume e o avistou estendido no chão do corredor entre a cozinha e a sala. Ela tocou em seu corpo parado. Levantou o braço do morto que deixou-o cair sem esboçar reação. Muito religiosa a tia já foi encomendando o defunto para todos os santos de sua devoção.

Criado a imagem por IA

Antes que terminasse o rosário levou um tremendo susto quando Antonio deu um grande suspiro, abriu os olhos e saiu andando como se nada tivesse acontecido. Nem deu atenção para a tia que se abanava e fazia o sinal da cruz sem parar. Na terceira vez foi mais um desavisado que encontrou o “falecido” esparramado no chão. Foi logo alertando a família, chorando, mas foi orientado desta vez a esperar uma confirmação.

Dito e feito, a criatura acordou uns minutos depois com a cara mais deslavada do mundo e nem sequer deu atenção. Ninguém sabe se a próxima ou a seguinte, ou a outra ainda será a morte final de Antonio Carlos. Ele tem 15 anos, é da raça bichon frisé e também é conhecido pelo apelido Toy. (Até a data da publicação desta história Antônio Carlos sobreviveu a todas as suas mortes).

Ouça a história na voz de Adriana Passari:

 

 

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