Por Adriana Passari - @adrianapassari
Memórias
Corre Cotia, na casa da tia, corre cipó, na casa da vó, lencinho na mão, caiu no chão, moça bonita do meu coração, posso correr? Pode. Quantas voltas? Duas…
Quando ela percebeu que a pedrinha foi deixada às suas costas, levantou rapidamente, quase num salto e disparou a correr em torno da roda de crianças numa tentativa insana de alcançar a coleguinha.
Ambas correram desenfreadamente enquanto as demais gritavam palavras de incentivo torcendo por uma ou por outra até que a colega foi mais ágil e alcançou o espaço vazio deixado por ela no círculo e atirou-se ao chão sentando em seu lugar, vencendo a rodada. Ao som de gritos e risadas ela aceitou de bom grado a sua derrota e passou ela mesma a cantarolar: Corre Cotia, na casa da tia. Era sua vez de escolher o próximo oponente na disputa. Pés descalços, seu cabelo preso num rabo de cavalo todo desgrenhado, um short de malha estampado de flores e uma camiseta surrada compunham o look do sábado à tarde naquele campinho de terra onde todos se encontravam para brincar nos horários depois da escola e finais de semana. Eram todos amigos ou conhecidos da vizinhança que passavam o tempo juntos enquanto suas mães cuidavam dos afazeres importantes da casa.
Ao fim da tarde a turma ia diminuindo quando eles iam obedecendo um a um ao chamado dos familiares para voltar para casa e cuidar das tarefas escolares, tomar banho e jantar. Eram dias felizes e que valiam tanto que não se podia mensurar. Hoje, olhando para seu passado ela enxergava isso com muita clareza. Sorriu primeiro discretamente, depois riu ainda mais forte, lembrando do tombo que ela e a amiga levaram naquele mesmo dia, correndo ao redor do grupo e tropeçando no cadarço do tênis que estava desamarrado. Ao tentar evitar a queda ela agarrou o braço da amiga que sucumbiu ao seu peso e ambas iam caindo por cima de dois colegas que tentaram evitar o tombo e acabaram ficando esmagados por baixo delas.

Por sorte, ninguém se feriu gravemente, somente alguns arranhões e hematomas que as crianças já estão acostumadas. Em vez de chorar elas riram tanto, mas tanto, que depois do susto inicial estavam todos contagiados gargalhando. Assim como ela, quando se deu conta estava gargalhando alto sem ter como explicar. Eram as suas doces memórias de um tempo que não voltava mais. Como era mesmo o nome daquela amiga? Logo, ao seu lado apareceu a enfermeira perguntando: por que está tão alegre hoje Dona Amália? Que bom vê-la rindo assim. Conte-me o que é tão engraçado?
Quem está rindo? Respondeu Amália, sentada na cadeira de rodas com olhar distante. Quem é você? E quem é essa Amália?
Ouça a história na voz de Adriana Passari: