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Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Publicada em: 30/03/2026 16:49 -

Ratinho Junior sai de cena e escancara o vazio da “terceira via”

 

Ronaldo Castilho

 

A desistência de Ratinho Junior (PSD) da pré-candidatura à Presidência da República em 2026 não deve ser lida como um gesto isolado ou meramente pessoal. Trata-se, na prática, de mais um sintoma de um problema estrutural da política brasileira: a incapacidade de consolidação de uma alternativa viável fora da polarização. Ao sair do páreo, o governador do Paraná não apenas recua de um projeto nacional, mas ajuda a desmontar, mais uma vez, a narrativa da chamada “terceira via”.

Ratinho Junior reunia características raras no cenário atual. Tinha alta aprovação em seu estado, baixa rejeição quando comparado a nomes como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), e uma imagem de gestor que poderia dialogar com setores distintos do eleitorado. Ainda assim, esses atributos não foram suficientes para sustentá-lo como um candidato competitivo em nível nacional. Isso revela uma verdade incômoda: no Brasil de hoje, não basta ser bem avaliado, é preciso estar inserido em um dos polos da disputa. Fora disso, a candidatura tende a definhar antes mesmo de ganhar corpo.

A decisão de permanecer no governo do Paraná, portanto, está longe de ser apenas um gesto de responsabilidade administrativa. É, sobretudo, uma escolha estratégica e defensiva. Ratinho Junior percebeu que sua candidatura não decolaria no ritmo necessário e que, ao insistir no projeto presidencial, correria o risco de perder o controle político de seu próprio estado. E é justamente no Paraná que se encontra o ponto central dessa decisão.

O avanço de Sérgio Moro (PL) como possível candidato ao governo estadual muda completamente o tabuleiro político local. Com forte apelo junto ao eleitorado de direita e respaldo de setores do bolsonarismo, Moro se apresenta como uma ameaça real ao grupo político de Ratinho. Ao deixar o governo para disputar a Presidência, o atual governador abriria espaço para fragmentação de sua base e facilitaria o crescimento de um adversário competitivo. Permanecer no cargo, nesse contexto, não é apenas uma escolha, mas uma necessidade para quem pretende manter influência e projetar continuidade de poder.

Essa movimentação, no entanto, carrega um significado mais profundo. Ratinho Junior optou por preservar seu capital político regional em vez de arriscar uma construção nacional. É uma decisão compreensível do ponto de vista pragmático, mas limitada sob a ótica de liderança. Em vez de se colocar como alternativa à polarização, preferiu recuar diante dela. Em vez de tensionar o sistema político, adaptou-se às suas limitações.

O impacto disso vai além do Paraná. A saída de um nome competitivo, ainda que não líder nas pesquisas, enfraquece ainda mais o campo que tenta se apresentar como opção intermediária. O PSD, partido de Ratinho, perde um de seus ativos mais promissores e se vê obrigado a reorganizar suas apostas, possivelmente em torno de figuras como Ronaldo Caiado ou Eduardo Leite, que também enfrentam dificuldades para romper a barreira da polarização.

No cenário nacional, o recado é claro. A eleição de 2026 caminha, mais uma vez, para ser dominada pelos mesmos polos que vêm marcando a política brasileira nos últimos anos. A ausência de uma alternativa consistente não é fruto da falta de nomes, mas da falta de viabilidade política e, em certa medida, de disposição para enfrentar o risco. A terceira via continua sendo mais uma aspiração retórica do que um projeto concreto de poder.

No Paraná, por sua vez, a disputa tende a ganhar contornos mais diretos e menos ideológicos. A permanência de Ratinho Junior indica que a eleição estadual será tratada como prioridade absoluta. O confronto com um eventual candidato como Sérgio Moro tende a transformar o pleito em uma batalha pelo controle político do estado, com menos espaço para debate programático e mais foco na ocupação de espaço e influência.

No fim das contas, a desistência de Ratinho Junior revela mais sobre o momento da política brasileira do que sobre o próprio governador. Ela escancara um sistema que desestimula movimentos ousados e recompensa decisões defensivas. Mostra que, diante da polarização consolidada, até mesmo nomes com potencial preferem recuar a enfrentar uma disputa incerta. E, acima de tudo, reforça a percepção de que o Brasil segue preso a uma dinâmica eleitoral previsível, onde a novidade não encontra espaço para se transformar em alternativa real.

Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. Possui licenciatura em História e Geografia, bacharelado em Teologia e Ciência Política, além de MBA em Gestão Pública com Ênfase em Cidades Inteligentes. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

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