Tocando Agora: ...

Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Publicada em: 27/04/2026 09:34 -

A democracia em silêncio: o significado da abstenção crescente

 

Ronaldo Castilho

 

A desconfiança na classe política não é um fenômeno novo, mas adquiriu contornos particularmente intensos no mundo contemporâneo. Ela se manifesta de diferentes formas, desde o descrédito generalizado nas instituições até a recusa silenciosa de participar do processo democrático, como evidenciam os índices de abstenção eleitoral. No Brasil recente, por exemplo, mais de 31 milhões de eleitores deixaram de votar no primeiro turno das eleições de 2022, o que corresponde a cerca de 20% do eleitorado, a maior taxa desde 1998. No segundo turno, mesmo com leve redução, a abstenção ainda ficou em torno de 20,59%. Já nas eleições municipais de 2024, o índice voltou a crescer em vários contextos, aproximando-se de 25% em estados como São Paulo e chegando perto de 30% em algumas cidades no segundo turno. Esses números não são apenas estatísticas: são sintomas de um mal-estar político mais profundo.

Desde a Antiguidade, a relação entre povo e poder político foi marcada por tensões. Aristóteles já alertava que a estabilidade de um regime depende da confiança dos cidadãos em suas instituições. Quando essa confiança se rompe, a própria ideia de comunidade política entra em crise. Séculos depois, Nicolau Maquiavel observou que os governantes que se afastam do povo tendem a perder legitimidade, ainda que mantenham o poder formal. A política, para ele, exige não apenas autoridade, mas também percepção de justiça e eficácia.

Na modernidade, essa discussão se intensifica. Jean-Jacques Rousseau defendia que a soberania reside no povo, mas reconhecia o risco de que representantes se distanciem da vontade geral. Já Alexis de Tocqueville, ao analisar a democracia, percebeu que a participação cívica é o que sustenta o regime democrático. Quando os cidadãos se tornam apáticos ou descrentes, abre-se espaço para formas de poder menos representativas.

No século XX, o tema ganha novas camadas com a análise das massas e da opinião pública. Hannah Arendt chamou atenção para o perigo da alienação política, destacando que o afastamento dos cidadãos da esfera pública pode enfraquecer a democracia e facilitar a emergência de discursos autoritários. Por sua vez, Jürgen Habermas enfatizou a importância do debate público racional, alertando que sua deterioração compromete a legitimidade das decisões políticas.

No Brasil e em outras democracias contemporâneas, a desconfiança na classe política tem múltiplas causas. Escândalos de corrupção recorrentes, promessas não cumpridas, desigualdade persistente e a percepção de distanciamento entre representantes e representados contribuem para esse cenário. Soma-se a isso o impacto das redes sociais, que, ao mesmo tempo em que ampliam o acesso à informação, também intensificam a polarização e a circulação de desinformação, reforçando percepções negativas.

A abstenção eleitoral, nesse contexto, torna-se uma forma silenciosa de protesto. Diferentemente do voto nulo ou em branco, que ainda pressupõem comparecimento, a ausência nas urnas indica, muitas vezes, um rompimento mais profundo com o sistema político. Embora o voto seja obrigatório no Brasil, a persistência de índices elevados de abstenção sugere que uma parcela significativa da população não se sente representada ou motivada a participar. É uma espécie de descrença institucionalizada.

As consequências desse fenômeno são amplas e preocupantes. Em primeiro lugar, a abstenção afeta a representatividade. Governantes eleitos com base em uma participação reduzida podem enfrentar questionamentos sobre sua legitimidade, ainda que tenham vencido dentro das regras do jogo. Em segundo lugar, ela pode distorcer o resultado eleitoral, favorecendo grupos mais mobilizados em detrimento de uma maioria silenciosa. Por fim, a desconfiança contínua tende a alimentar um ciclo vicioso: quanto menor a participação, menor o engajamento cívico, e quanto menor o engajamento, maior o distanciamento entre sociedade e política.

No cenário atual, marcado por rápidas transformações tecnológicas e sociais, esse desafio se torna ainda mais complexo. A política passou a disputar atenção com uma multiplicidade de estímulos, enquanto a confiança nas instituições enfrenta crises sucessivas em escala global. A sensação de que “todos são iguais” ou de que “nada muda” contribui para o afastamento, mas também simplifica uma realidade que é, por natureza, complexa.

No entanto, é preciso cuidado para não confundir crítica com rejeição total. A desconfiança pode ser um elemento saudável da democracia quando se traduz em vigilância, cobrança e participação ativa. O problema surge quando ela se transforma em apatia ou cinismo, esvaziando o espaço público. Como já indicavam pensadores de diferentes épocas, a democracia não se sustenta apenas por regras formais, mas pela disposição dos cidadãos em participar e confiar minimamente no processo coletivo.

Diante disso, o desafio contemporâneo não é eliminar a desconfiança, mas equilibrá-la com engajamento. Isso passa por maior transparência, fortalecimento das instituições, educação política e incentivo à participação cidadã. Mais do que isso, exige uma reflexão sobre o papel de cada indivíduo na construção da vida pública. Afinal, a política não é apenas aquilo que se faz nos gabinetes ou nos parlamentos, mas também aquilo que se constrói na relação entre cidadãos e suas escolhas.

A alta abstenção registrada nas últimas eleições brasileiras não deve ser vista apenas como um dado pontual, mas como um sinal de alerta. Ela revela uma democracia que continua funcionando formalmente, mas que enfrenta desafios importantes em termos de confiança e participação. Compreender suas causas e consequências é um passo fundamental para fortalecer o próprio regime democrático e evitar que o distanciamento entre sociedade e política se torne ainda mais profundo.

Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. Possui licenciatura em História e Geografia, bacharelado em Teologia e Ciência Política, além de MBA em Gestão Pública com Ênfase em Cidades Inteligentes. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

Compartilhe:
COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!
Carregando...