Praticante não é atleta - e tudo bem.
Um desafios silenciosos e pouco esclarecido, apesar de fundamental, está na distorção entre a identidade e comportamento dentro das modalidades.
Hoje, é cada vez mais comum encontrarmos praticantes que se enxergam como atletas. E isso, por si só, não seria um problema, se viesse acompanhado do principal elemento que define o atleta: o compromisso. Não basta treinar. Não basta competir eventualmente. Não basta vestir o uniforme.
O atleta é definido por um conjunto de fatores objetivos: regularidade de treino, disciplina alimentar, organização da rotina, capacidade de lidar com frustração, aderência a planejamento técnico e constância ao longo do tempo. É um perfil de comportamento, não apenas de participação.
O que se observa, na prática, é uma desconexão. Há uma expectativa crescente por reconhecimento, espaço em competições, visibilidade e até apoio institucional - elementos legítimos dentro do esporte de rendimento, mas sem a contrapartida mínima de compromisso que sustenta esse sistema.
Isso gera um desequilíbrio que impacta diretamente a gestão esportiva. Projetos passam a lidar com demandas de “atletas” que, na prática, ainda operam na lógica do praticante: presença irregular, baixa tolerância à exigência, dificuldade em seguir processos de longo prazo e abandono diante das primeiras adversidades. E aqui é importante ser claro: não há problema algum em ser praticante.
O esporte precisa e muito de praticantes. São eles que sustentam a base, promovem saúde pública, fortalecem o tecido social e ampliam o acesso. Essa é uma dimensão estratégica, inclusive para políticas públicas. O problema surge quando há uma tentativa de acessar benefícios do esporte de rendimento sem assumir suas responsabilidades.
Do ponto de vista técnico, isso compromete o ambiente de treino. Do ponto de vista político, dificulta a construção de critérios claros para investimento, seleção e desenvolvimento. Sem essa diferenciação, tudo vira a mesma coisa — e quando tudo é igual, ninguém evolui de verdade.
Cabe aos gestores, treinadores e também ao poder público estabelecer parâmetros mais objetivos. Quem é praticante precisa ser acolhido, incentivado e mantido ativo. Quem deseja ser atleta precisa entender que existe um caminho estruturado, com exigências proporcionais ao nível de desempenho esperado. Isso não é exclusão. É organização.
O esporte de base não pode ser um espaço de ilusão, mas sim de formação — inclusive de mentalidade. Porque no fim, o que define o atleta não é o discurso, nem a intenção.
É o comportamento sustentado ao longo do tempo. E isso ainda é para muitos, o ponto que precisa ser enfrentado com mais honestidade.
Frederico Mitooka
Gestor Esportivo | CREF 027474-G/SP
Graduado em Educação Física e Comunicação Social com pós-graduação em Ciências Políticas e especialização em Gestão Pública.