Técnico não é Gestor. Gestor não é Secretária
No esporte brasileiro, especialmente nas modalidades que sobrevivem muito mais pela paixão do que pelo orçamento, existe uma outra confusão perigosa de funções e ela acaba custando caro no final das contas. E hoje, fechamos uma série de artigos sobre o assunto.
Durante anos, principalmente junto ao setor público, existe a ideia de que o técnico precisa fazer tudo. Ensinar, planejar treino, organizar campeonato, captar recurso, responder mensagem, emitir documento, montar equipe, resolver conflito, vender evento, carregar material e ainda apresentar resultado. Quando não consegue, a culpa recai sobre ele. Mas é preciso dizer com clareza: técnico não é gestor.
O técnico tem uma missão extremamente específica e complexa que exige estudo, atualização constante, observação, metodologia e presença diária. Quando ele é obrigado a assumir todas as funções administrativas, a consequência é inevitável: perde-se qualidade técnica. O treino vira improviso. O planejamento fica superficial. A energia vai embora em tarefas burocráticas.
Da mesma forma, também é preciso entender que gestor não é secretária para ficar fazendo relatórios, compra de materiais, ficar enviando solicitações de transporte, equipamentos e outras coisas que somente quem atua na profissão sabe do que estou falando. Gestão é liderança institucional, é pensar em sustentabilidade, governança, relacionamento político, captação de recursos, imagem da entidade, planejamento de longo prazo e organização estrutural. Quando o gestor vira apenas executor operacional, a instituição deixa de evoluir estrategicamente.
A cultura do improviso ainda é romantizada no esporte brasileiro. Existe quase um orgulho em dizer que uma pessoa “faz tudo sozinha”. Mas isso não é eficiência e sim sobrecarga. Projetos sólidos são construídos com funções claras e quando cada função é respeitada, o esporte cresce de maneira profissional.
Talvez esteja na hora de o esporte parar de celebrar o “faz tudo” e começar a valorizar equipes organizadas, profissionais preparados e ambientes sustentáveis. Porque no fim, medalhas são consequência mas organização é escolha.
Frederico Mitooka
Gestor Esportivo | CREF 027474-G/SP
Graduado em Educação Física e Comunicação Social com pós-graduação em Ciências e especialização em Gestão Pública.