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Coluna: Pirarazzi com Elson de Belém

Publicada em: 24/05/2026 13:46 -

O valor do artista para o mercado cultural

Há quem diga que a arte não tem preço. Talvez seja verdade. Mas o artista tem custo, tempo, estudo, experiência e, sobretudo, valor. E é justamente nesse ponto que o mercado cultural brasileiro ainda tropeça: celebra-se a obra, consome-se o espetáculo, compartilha-se a emoção — mas frequentemente se esquece de reconhecer quem a produz.

O artista é tratado, muitas vezes, como alguém movido apenas pela paixão. Como se a paixão anulasse a necessidade de remuneração digna. Como se o aplauso pudesse pagar aluguel, transporte, alimentação ou anos de aperfeiçoamento técnico. Existe uma romantização perigosa da precariedade artística. O criador é admirado enquanto resiste, nunca enquanto prospera.

No entanto, toda cadeia cultural depende dele. Sem o artista, não há show, exposição, filme, festival, feira literária ou espetáculo de dança. Não há identidade cultural, memória coletiva ou inovação simbólica. O mercado cultural gira em torno da capacidade humana de transformar experiência em linguagem sensível. E isso exige trabalho.

A economia criativa movimenta bilhões no mundo inteiro. Grandes cidades compreendem que investir em cultura significa movimentar turismo, comércio, gastronomia, educação e tecnologia. Um evento cultural não gera apenas entretenimento; ele ativa hotéis, restaurantes, transporte, publicidade e pequenos negócios locais. Ainda assim, o artista continua sendo o elo mais vulnerável da engrenagem.

Existe também um paradoxo contemporâneo. Nunca se consumiu tanta arte. Música, vídeos, fotografias, ilustrações e performances circulam em velocidade inédita nas redes sociais. Porém, a lógica digital criou a ilusão de que conteúdo artístico deve ser gratuito ou barato. Muitos passaram a enxergar o trabalho criativo como algo instantâneo, descartável e facilmente substituível.

Mas arte não nasce de algoritmos sozinhos. Ela nasce da vivência humana. Da observação do mundo. Do conflito, da memória, da sensibilidade e da técnica. O artista interpreta o tempo em que vive e devolve à sociedade perguntas que ela ainda não conseguiu responder. Seu valor não está apenas no produto final, mas na capacidade de provocar reflexão, pertencimento e transformação.

Reconhecer o valor do artista é reconhecer também o valor da cultura como patrimônio social. Um país que desvaloriza seus criadores enfraquece sua própria identidade. Porque a cultura não é ornamento: é estrutura. Ela define como um povo se vê, como se comunica e como deseja ser lembrado.

Talvez o maior desafio do mercado cultural seja justamente abandonar a lógica da sobrevivência e construir uma lógica de sustentabilidade. O artista não deveria depender apenas da resistência heroica para continuar produzindo. Ele deveria encontrar no próprio mercado condições reais para viver daquilo que cria.

Quando a sociedade entende isso, a arte deixa de ser vista como luxo e passa a ocupar seu verdadeiro lugar: o de necessidade humana fundamental.

Elson de Belém é Artista e Comunicador Cultural

 

Edição de texto CCPZ

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