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Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Publicada em: 13/07/2026 13:57 -

As festas populares ainda unem o Brasil?

 

Ronaldo Castilho

 

Em um país marcado por profundas diferenças sociais, econômicas, políticas, religiosas e culturais, poucas manifestações conseguem reunir tantas pessoas em torno de um mesmo sentimento quanto as festas populares. Em tempos de polarização, quando o debate público parece cada vez mais dividido, vale perguntar: as festas populares ainda unem o Brasil? A resposta, embora complexa, continua sendo, em grande medida, afirmativa.

Muito antes de o Brasil existir como nação independente, as celebrações religiosas, cívicas e comunitárias já desempenhavam um papel fundamental na construção da vida coletiva. Elas não eram apenas momentos de lazer ou devoção. Representavam espaços de convivência, de solidariedade, de preservação da memória e de fortalecimento da identidade dos povos.

O sociólogo francês Émile Durkheim observava que os rituais coletivos produzem aquilo que chamou de "efervescência social", um estado em que os indivíduos deixam de agir apenas como pessoas isoladas e passam a experimentar o sentimento de pertencimento a uma comunidade. Segundo ele, as cerimônias coletivas renovam os vínculos sociais e reafirmam os valores compartilhados por um grupo.

O antropólogo Victor Turner aprofundou essa reflexão ao afirmar que as festas criam momentos de communitas, uma experiência temporária de igualdade, na qual as diferenças hierárquicas perdem importância diante da vivência comum. Durante uma celebração, ricos e pobres, jovens e idosos, moradores antigos e visitantes ocupam o mesmo espaço, compartilham os mesmos símbolos e participam de um mesmo acontecimento.

Também o historiador francês Jacques Le Goff via nas festas populares um importante instrumento de preservação da memória coletiva. Para ele, as sociedades mantêm sua identidade não apenas por meio dos livros e documentos, mas sobretudo através das tradições transmitidas entre gerações. Cada procissão, cada dança, cada música e cada refeição típica carrega fragmentos da história de um povo.

No pensamento brasileiro, Gilberto Freyre destacou que a cultura nacional foi construída justamente pela convivência entre diferentes matrizes culturais. Em Casa-Grande & Senzala, mostra que o Brasil nasceu do encontro — muitas vezes conflituoso — entre portugueses, indígenas e africanos. As festas populares tornaram-se um dos espaços privilegiados onde essa diversidade se manifesta de forma mais visível e criativa.

Câmara Cascudo, talvez o maior estudioso do folclore brasileiro, afirmava que as festas representam uma verdadeira enciclopédia viva da cultura popular. Nelas sobrevivem costumes, crenças, músicas, culinária, linguagens e símbolos que resistem ao tempo e atravessam gerações. Para Cascudo, compreender uma festa popular é compreender parte da alma do Brasil.

Até mesmo o filósofo Johan Huizinga, em Homo Ludens, defendia que o jogo, a celebração e a festa não são atividades secundárias da vida humana, mas elementos fundamentais da própria civilização. O ser humano celebra porque necessita dar significado ao tempo, à memória e à convivência.

Entretanto, as festas populares também enfrentam desafios contemporâneos. A urbanização acelerada, a transformação das relações comunitárias, o avanço do individualismo e a influência das redes sociais modificaram profundamente a forma como as pessoas convivem. Muitas celebrações passaram a competir com o entretenimento digital, enquanto outras foram excessivamente comercializadas. Ainda assim, continuam despertando um sentimento de pertencimento que poucas experiências conseguem oferecer.

Um exemplo emblemático dessa força cultural está em Piracicaba. Em 2026, a tradicional Festa do Divino Espírito Santo celebra seus 200 anos de história, consolidando-se como uma das manifestações religiosas e culturais mais antigas do Estado de São Paulo. Ao longo de dois séculos, a festa atravessou mudanças políticas, crises econômicas, guerras, epidemias e profundas transformações sociais sem perder sua essência.

A Festa do Divino ultrapassa o aspecto exclusivamente religioso. Ela reúne famílias, fortalece laços comunitários, preserva tradições centenárias, movimenta a economia local, valoriza artistas, músicos e voluntários e mantém viva uma herança cultural que pertence não apenas aos fiéis, mas a toda a população piracicabana. Em cada procissão, em cada canto, em cada gesto de solidariedade e partilha, renova-se um patrimônio imaterial construído por inúmeras gerações.

Talvez seja exatamente esse o maior ensinamento das festas populares. Enquanto boa parte da sociedade se organiza em torno das diferenças, elas continuam lembrando aquilo que temos em comum. Elas suspendem, ainda que por alguns dias, as disputas cotidianas e convidam as pessoas a compartilhar símbolos, histórias, afetos e esperanças.

As festas populares não eliminam as divisões do país, nem resolvem seus problemas estruturais. Mas continuam oferecendo algo cada vez mais raro: espaços reais de encontro. Em uma época em que grande parte das relações acontece por telas e algoritmos, reunir milhares de pessoas em torno de uma tradição centenária talvez seja um dos maiores atos de resistência cultural.

Celebrar, afinal, é muito mais do que manter um calendário de eventos. É preservar a memória, fortalecer a identidade coletiva e reafirmar que nenhuma sociedade permanece viva sem reconhecer suas próprias raízes. Enquanto houver comunidades dispostas a transmitir suas tradições às novas gerações, as festas populares continuarão cumprindo uma missão que atravessa os séculos: lembrar que um povo só permanece unido quando também celebra junto.

Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. Possui licenciatura em História e Geografia, bacharelado em Teologia e Ciência Política, além de MBA em Gestão Pública com Ênfase em Cidades Inteligentes. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

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