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Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Publicada em: 23/12/2025 10:04 -

O cargo é maior que a pessoa

 

Ronaldo Castilho

 

A afirmação “o cargo é maior que a pessoa”, colocada entre aspas por carregar o peso de um princípio republicano, traduz uma das ideias mais fundamentais da vida pública e da organização do Estado. Ela remete à noção de que o poder não pertence ao indivíduo, mas à função que ele exerce temporariamente em nome da coletividade. Ao longo da história, pensadores de diferentes épocas e correntes filosóficas refletiram sobre essa separação entre a pessoa e o cargo, alertando para os riscos da personalização do poder e defendendo a supremacia das instituições como condição para a justiça, a estabilidade e a democracia.

Na Antiguidade, Platão, em “A República”, já sustentava que o governante não deveria governar em benefício próprio, mas como guardião da ordem e do bem comum. Para ele, o exercício do poder era um encargo, quase um fardo, assumido em nome da pólis. O governante ideal não se confunde com o cargo que ocupa; ele o serve. Essa concepção revela, desde cedo, a ideia de que a autoridade não é uma extensão da vaidade pessoal, mas uma responsabilidade institucional. Aristóteles, por sua vez, ao analisar as formas de governo, advertia que quando o poder passa a servir aos interesses particulares, ocorre sua degeneração. Em outras palavras, quando a pessoa se sobrepõe ao cargo, a política deixa de ser virtude e se transforma em abuso.

Já na modernidade, Thomas Hobbes e John Locke, cada um a seu modo, contribuíram para reforçar essa distinção. Hobbes via o Estado como uma entidade superior aos indivíduos, criada para garantir a ordem e evitar o caos. Locke, mais próximo das democracias contemporâneas, defendia que o poder político é delegado pelo povo e deve ser exercido dentro de limites claros. Em ambos os casos, o governante não é dono do poder, mas depositário temporário dele. Jean-Jacques Rousseau foi ainda mais incisivo ao afirmar que a soberania pertence ao povo e jamais pode ser apropriada por um indivíduo. Assim, quem ocupa um cargo público o faz como representante de uma vontade coletiva, jamais como proprietário do poder que exerce.

Montesquieu, ao formular a teoria da separação dos poderes em “O Espírito das Leis”, deu forma institucional a essa ideia. Executivo, Legislativo e Judiciário não existem para satisfazer vontades pessoais, mas para equilibrar forças e proteger a liberdade. Cada poder é maior que seus ocupantes, porque é permanente, enquanto as pessoas são transitórias. Os cargos permanecem, os indivíduos passam. Esse princípio é essencial para compreender a lógica republicana: a alternância no poder não ameaça o Estado, justamente porque o Estado não se confunde com quem governa.

No campo da sociologia, Max Weber aprofundou essa reflexão ao tratar da burocracia e da autoridade racional-legal. Para ele, o Estado moderno se sustenta na impessoalidade, em regras e normas que valem independentemente de quem esteja no comando. O servidor público, o magistrado ou o governante exercem funções definidas previamente, e sua legitimidade decorre do cargo, não do carisma pessoal. Weber alertava que a personalização excessiva do poder enfraquece as instituições e abre espaço para o autoritarismo, pois transforma a função pública em extensão da personalidade do governante.

Essa lógica se manifesta de forma muito clara na prática institucional, especialmente quando se observa o funcionamento dos três poderes da República. Quando uma instituição convida uma autoridade para uma solenidade, uma festividade ou um ato oficial, ela não está convidando a pessoa em sua dimensão privada, mas o cargo que ela ocupa. O convite é dirigido ao presidente da República, ao governador, ao prefeito, ao deputado, ao senador ou ao magistrado, e não ao indivíduo em sua condição pessoal. A presença dessa autoridade simboliza o poder do Estado que ela representa. Trata-se de um gesto institucional, não de um reconhecimento pessoal.

No Executivo, o chefe do poder encarna a representação máxima do Estado, mas não pode confundir essa posição com um projeto individual de poder. O cargo exige postura, responsabilidade e consciência de que cada ato repercute sobre a instituição. No Legislativo, parlamentares não falam apenas em nome de si mesmos, mas do mandato que receberam do povo. Suas palavras e decisões ganham peso não por quem são, mas pelo cargo que ocupam. No Judiciário, essa distinção é ainda mais sensível: o juiz, ao decidir, não o faz como cidadão comum, mas como representante da lei e da Constituição. Sua autoridade emana do cargo, e não de suas convicções pessoais.

O esquecimento desse princípio costuma gerar crises institucionais. Quando o ocupante do cargo passa a agir como se fosse maior que a função que exerce, instala-se o personalismo, o culto à personalidade e o enfraquecimento das instituições. A história está repleta de exemplos em que líderes confundiram o Estado com sua própria figura, resultando em autoritarismo, instabilidade e rupturas democráticas. Por isso, a frase “o cargo é maior que a pessoa” não é apenas um enunciado moral, mas um alerta permanente.

Hannah Arendt, ao refletir sobre o poder e a autoridade, lembrava que o poder verdadeiro nasce da ação coletiva e da legitimidade institucional, não da força individual. Quando o indivíduo se coloca acima da instituição, o poder se deteriora. Nesse sentido, respeitar o cargo é respeitar a própria democracia, pois é reconhecer que as instituições existem para além das vontades pessoais e das circunstâncias do momento.

Em uma República, a grandeza não está em quem ocupa o cargo, mas na capacidade de compreender seus limites e deveres. O verdadeiro estadista, o verdadeiro agente público, é aquele que sabe que sua passagem é temporária, mas que o cargo que ocupa carrega uma história, uma função e uma responsabilidade que o ultrapassam. Assim, reafirmar que “o cargo é maior que a pessoa” é reafirmar o compromisso com a institucionalidade, com a impessoalidade e com o bem comum. É reconhecer que, acima dos nomes, dos rostos e das vaidades, estão as instituições que sustentam a vida democrática e garantem a continuidade do Estado.

Ronaldo Castilho é Jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. É licenciado em História e Geografia, bacharel em Teologia e Ciência Política, e possui MBA em Gestão Pública com ênfase em Cidades Inteligentes.

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