Entre a opinião e o conhecimento: o desafio da credibilidade na sociedade da informação
Ronaldo Castilho
Vivemos um tempo marcado pela abundância de informações e pela velocidade com que elas circulam. Nunca foi tão fácil acessar conteúdos, aprender novas habilidades e expressar opiniões publicamente. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil distinguir o conhecimento construído com rigor da simples aparência de saber. A ascensão dos chamados especialistas instantâneos revela uma transformação profunda na forma como a sociedade percebe autoridade intelectual, experiência e formação. Em meio a redes sociais, vídeos curtos e discursos simplificados, o conhecimento acumulado ao longo de anos de estudo muitas vezes perde espaço para certezas rápidas e respostas fáceis.
A democratização da informação trouxe ganhos inegáveis. O acesso antes restrito a bibliotecas, universidades e círculos acadêmicos tornou-se amplo e imediato. No entanto, a mesma ferramenta que amplia horizontes também favorece a superficialidade. A lógica da visibilidade passou a competir diretamente com a lógica da consistência. Quem fala com mais segurança ou com maior alcance nem sempre é quem possui maior domínio sobre o tema. Nesse cenário, a autoridade deixa de ser construída pela profundidade do pensamento e passa a ser medida pelo número de seguidores, curtidas ou compartilhamentos.
O fenômeno não é totalmente novo. Sócrates já alertava, na Atenas antiga, para o perigo da falsa sabedoria. Em seus diálogos, questionava aqueles que acreditavam saber muito, mas que não conseguiam sustentar suas afirmações quando submetidas ao exame racional. Para o filósofo, reconhecer a própria ignorância era o primeiro passo para o verdadeiro conhecimento. A diferença é que, no mundo contemporâneo, a falsa certeza encontra mecanismos de amplificação inéditos. A dúvida, que deveria ser motor do aprendizado, passa a ser vista como fraqueza, enquanto a opinião firme, ainda que desinformada, é frequentemente premiada pela atenção pública.
Platão, discípulo de Sócrates, defendia que a busca pela verdade exigia disciplina intelectual e formação filosófica. Para ele, a sociedade corria riscos quando a aparência se sobrepunha à essência. A famosa alegoria da caverna permanece atual ao ilustrar indivíduos que tomam sombras por realidade. Hoje, as sombras podem ser manchetes apressadas, recortes fora de contexto ou análises simplificadas que ignoram a complexidade dos fatos. A velocidade da informação cria a ilusão de compreensão, quando na verdade apenas multiplica fragmentos desconectados.
Aristóteles, por sua vez, valorizava a experiência aliada à razão. O conhecimento, segundo ele, não nasce apenas da opinião, mas da observação sistemática e da reflexão crítica. Essa perspectiva contrasta com a cultura contemporânea do comentário imediato, na qual a necessidade de opinar precede o esforço de compreender. A pressão por posicionamento rápido reduz o espaço para o silêncio reflexivo, elemento essencial para qualquer elaboração intelectual mais profunda.
Na modernidade, René Descartes propôs o método da dúvida como caminho para alcançar certezas sólidas. Questionar, investigar e submeter ideias ao crivo da razão eram etapas indispensáveis para evitar o erro. No entanto, o ambiente digital frequentemente inverte essa lógica. A dúvida é substituída pela confirmação de crenças prévias, reforçada por algoritmos que apresentam conteúdos alinhados às preferências do usuário. O resultado é a formação de bolhas informacionais nas quais o conhecimento deixa de ser confrontado e passa apenas a ser reafirmado.
Immanuel Kant contribuiu para esse debate ao defender a autonomia do pensamento. Para ele, o esclarecimento humano dependia da coragem de pensar por conta própria. Paradoxalmente, a era da informação ilimitada pode produzir o efeito oposto. A abundância de opiniões prontas reduz o esforço individual de análise. Em vez de autonomia intelectual, surge uma dependência de interpretações simplificadas oferecidas por figuras que se apresentam como especialistas em múltiplos temas, muitas vezes sem formação ou experiência consistente.
Zygmunt Bauman, ao descrever a modernidade líquida, apontou para a fragilidade das estruturas contemporâneas, marcadas pela rapidez e pela transitoriedade. O conhecimento também se torna líquido, consumido rapidamente e descartado com a mesma velocidade. A lógica do imediatismo dificulta processos que exigem tempo, como a pesquisa científica, a formação acadêmica e a maturação das ideias. O especialista instantâneo encaixa-se perfeitamente nesse ambiente, oferecendo respostas rápidas para questões complexas.
A desvalorização do conhecimento real não significa o fim do saber, mas revela uma crise de critérios. A sociedade contemporânea enfrenta o desafio de reconstruir parâmetros de credibilidade. Isso não implica restringir o acesso à informação, mas fortalecer a educação crítica e a valorização do método. Saber não é apenas acumular dados, mas compreender processos, reconhecer limites e aceitar a complexidade do mundo.
Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que parte dessa crise também decorre do distanciamento entre especialistas e o público. Linguagens excessivamente técnicas e ambientes acadêmicos fechados contribuíram para a percepção de que o conhecimento formal é inacessível ou desconectado da realidade cotidiana. A popularização do debate público exige que o saber qualificado seja também comunicável, sem abrir mão do rigor. Traduzir ideias complexas não significa simplificá-las ao ponto de esvaziá-las.
A valorização do conhecimento real passa, portanto, por um equilíbrio delicado. É preciso preservar a autoridade construída pelo estudo e pela experiência sem transformar o saber em instrumento de exclusão. A sociedade precisa de especialistas, mas também precisa de cidadãos capazes de questionar, compreender e dialogar. O problema não está na ampliação das vozes, mas na perda dos critérios que permitem distinguir opinião de conhecimento.
No fim das contas, a questão central não é a existência de especialistas instantâneos, mas o ambiente que os legitima. Enquanto a velocidade for mais valorizada que a profundidade e a certeza mais admirada que a reflexão, o conhecimento continuará sendo substituído por sua aparência. Recuperar o valor do saber exige resgatar a paciência intelectual, o respeito ao processo e a humildade diante da complexidade humana. Pensar exige tempo, esforço e disposição para rever convicções. Em uma época que premia respostas imediatas, talvez o maior ato de responsabilidade seja justamente voltar a fazer perguntas.
Ronaldo Castilho é Jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. É licenciado em História e Geografia, bacharel em Teologia e Ciência Política, e possui MBA em Gestão Pública com ênfase em Cidades Inteligentes.