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Artigo - Pecege - Formação continuada de professores: valorizando a experiência em sala de aula

Publicada em: 19/03/2026 08:15 -

Formação continuada de professores: valorizando a experiência em sala de aula 

Por Ana Paula Delgado, pós-graduada em Gestão Escolar no MBA USP/Esalq 

Falar em qualidade da educação é também falar da formação continuada dos professores. Esse conceito vai além da formação inicial recebida na graduação: trata-se de um processo permanente de atualização, reflexão e aperfeiçoamento das práticas pedagógicas, realizado ao longo da carreira docente. Em um mundo em constante transformação, marcado por novas tecnologias, mudanças curriculares e demandas sociais complexas, a formação continuada não é um luxo, mas uma necessidade para que o professor possa responder de forma crítica e criativa aos desafios que enfrenta. 

Mais do que acumular certificados, a formação continuada é espaço de construção coletiva, de troca de experiências e de reconhecimento do professor como sujeito ativo de sua profissão. É nela que se articulam teoria e prática, permitindo que os saberes adquiridos na sala de aula dialoguem com novas pesquisas, políticas educacionais e realidades sociais. Quando bem estruturada, tem o poder de fortalecer a identidade docente e de impulsionar transformações significativas no cotidiano escolar. 

É justamente nesse ponto que surge uma questão central: qual é, de fato, o lugar dos saberes profissionais na construção de um projeto educativo? A experiência docente, marcada por vivências concretas com alunos e comunidades, não pode ser tratada como mera prática a ser complementada por cursos ou teorias distantes da realidade escolar. Pelo contrário, precisa ser reconhecida como conhecimento legítimo e estruturante para a profissão. 

Os professores, enquanto sujeitos do conhecimento, têm o direito e a necessidade de participar da definição dos rumos de sua própria formação. No entanto, o que se observa com frequência é a reprodução de um modelo aplicacionista, em que especialistas distantes da prática ditam conteúdos, como se houvesse um manual universal para os desafios da docência. Essa lógica não apenas desconsidera a singularidade de cada contexto escolar, como também enfraquece a autonomia do professor. 

Um levantamento realizado com 57 docentes de escolas públicas e privadas mostra que 94,7% buscam de forma independente sua atualização. Muitos recorrem a cursos, diálogos com colegas ou leituras específicas, numa clara demonstração de que a formação não pode ser padronizada em propostas generalistas. As necessidades mudam conforme o tempo de carreira e as condições concretas de trabalho. Se os professores já procuram esse desenvolvimento por conta própria, cabe à gestão escolar abrir espaços para que participem do planejamento das formações institucionais. 

Outro dado relevante da pesquisa aponta que 91% dos docentes desejam contribuir no planejamento da formação continuada, mas apenas 31% já foram convidados a fazê-lo. Essa lacuna revela um equívoco persistente: ignorar os saberes acumulados na prática e as competências já em desenvolvimento no cotidiano escolar. A consequência é uma formação que, em vez de apoiar, reforça o distanciamento entre teoria e prática. 

As demandas atuais da educação tornam esse debate ainda mais urgente. A implementação da Base Nacional Comum Curricular, as novas tecnologias, as salas heterogêneas e os efeitos da pandemia impõem situações inéditas aos professores. Nesses cenários, a análise de casos reais, apontada como prioridade por 42,1% dos entrevistados, torna-se um caminho fértil, pois permite relacionar teoria e prática em diálogo direto com os desafios do presente. 

As competências docentes não podem ser reduzidas à transmissão de conteúdos. É preciso desenvolver habilidades como organizar situações de aprendizagem, envolver os alunos, enfrentar dilemas éticos e, sobretudo, administrar a própria formação. Esses elementos permanecem atuais, especialmente quando observamos a baixa valorização do trabalho coletivo. Apenas 5% dos professores pesquisados declararam buscar desenvolver competências para atuar em equipe, o que revela um ponto crítico: sem colaboração, não há fortalecimento da profissão docente. 

Reconhecer o professor como profissional do conhecimento é condição para avançarmos. Os saberes docentes não são acessórios, mas centrais. Eles resultam de trajetórias de vida, de reflexões constantes e de práticas que exigem soluções criativas e imediatas. Negligenciar essa bagagem é desperdiçar o que há de mais valioso na escola: a experiência acumulada de quem vive diariamente o desafio de ensinar. 

Por isso, é urgente superar a “lógica de catálogos” que reduz a formação a uma lista de cursos oferecidos. Mais do que multiplicar ofertas, precisamos criar espaços de diálogo coletivo, onde os professores reflitam juntos sobre suas práticas, compartilhem estratégias e construam soluções para os problemas reais da educação. Essa é uma condição para que a formação continuada se torne não apenas uma exigência burocrática, mas uma verdadeira alavanca de transformação profissional e social. 

Se queremos uma escola capaz de responder às complexidades do nosso tempo, precisamos valorizar os saberes docentes e colocá-los no centro da formação continuada. Isso não é apenas uma questão de método, mas de reconhecimento: os professores não são meros receptores de conhecimento, são produtores e mediadores, protagonistas de sua profissão. O convite está lançado, que gestores e políticas educacionais estejam dispostos a ouvi-los e a construir, com eles, uma formação que faça sentido. 

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