O café brasileiro entre o alívio do tarifaço e a urgência climática
Por Marcos Matos, CEO do CeCafé e mentor do AgroCEO do Instituto Pecege
As recentes mudanças na política tarifária dos Estados Unidos trouxeram um misto de alívio e apreensão ao agronegócio brasileiro, especialmente ao setor cafeeiro. O fim do tarifaço sobre diversos produtos, incluindo parte dos cafés, evitou um prejuízo bilionário ao Brasil. Estima-se que, caso o problema se estendesse até 2026, as perdas poderiam alcançar 4 bilhões de dólares, além de comprometer de forma irrecuperável a presença brasileira em marcas norte-americanas.
A decisão de 20 de novembro, que isentou boa parte dos cafés, gerou reação imediata do mercado, com exportações retomadas já no dia seguinte, sinalizando a relevância do tema para a competitividade do país.
No entanto, o café solúvel permanece como um ponto crítico. Apesar de representar apenas 10% do volume exportado pelo Brasil, esse produto responde por 36% da demanda norte-americana, considerado uma fatia estratégica. Mesmo assim, ficou de fora das isenções tarifárias: continua sujeito a 50% de taxação, resultado da soma entre tarifas recíprocas e adicionais aplicadas ao Brasil.
A ausência do NCM do café solúvel em todas as ordens executivas revela uma lacuna que ameaça um segmento industrializado, de alto valor agregado, no qual o Brasil é líder mundial, mas que já sofre pressão crescente da expansão produtiva do Vietnã.
Diante disso, entidades do setor intensificaram sua atuação diplomática. A audiência com o embaixador Felipe Drummond e o encaminhamento de uma solicitação direta ao chanceler Mauro Vieira refletem a urgência de incluir o café solúvel nos anexos das ordens executivas futuras. A não correção dessa omissão compromete não apenas receitas, mas também a coerência de uma política externa que busca fortalecer cadeias produtivas essenciais ao país. Ao mesmo tempo em que há avanços a celebrar, o alerta sobre esse segmento permanece como prioridade estratégica.
Paralelamente ao debate tarifário, a COP30 marcou um capítulo importante para o agro brasileiro no cenário internacional. A participação organizada do setor, com protagonismo da Embrapa, do sistema CNA/Senar e da articulação conduzida pelo ministro Roberto Rodrigues, foi decisiva para unificar narrativas, apresentar tecnologias e reforçar a imagem do Brasil como referência em agricultura tropical.
A criação da Agrizone e a estrutura montada na fazenda experimental da Embrapa em Belém demonstraram, na prática, a capacidade do país de dialogar com o mundo por meio de ciência, inovação e transparência.
Um dos pontos centrais dessa atuação foi a demonstração de que o agro brasileiro é, em diversas cadeias, carbono negativo. Estudos comprovam que o café arábica e o conilon, manejados sob boas práticas, sequestram mais carbono do que emitem — um dado que contraria percepções equivocadas frequentemente associadas ao setor. Ao colocar a agricultura tropical como solução climática, o Brasil reposiciona o debate e evidencia que produtividade, mitigação e sustentabilidade podem caminhar juntas.
Por fim, a atuação diplomática brasileira na COP30 também trouxe reflexos diretos para a formulação de políticas internas, como a suspensão do lançamento do Plano Clima. A decisão evitou a generalização de responsabilidades sobre desmatamento ilegal e mudança de uso do solo, temas que, embora relevantes, não podem ser atribuídos indistintamente ao agronegócio que opera com monitoramento e critérios socioambientais rigorosos.
Ao diferenciar cadeias produtivas e realidades territoriais, o Brasil deu um passo importante para alinhar sua agenda climática à realidade do campo. Ainda há desafios, mas o momento reforça que articulação técnica, diplomacia ativa e visão estratégica são fundamentais para proteger mercados, reputação e futuro do agro nacional.