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Coluna: Pirarazzi com Elson Belém

Publicada em: 21/06/2026 09:02 -

Entre a sanfona e o sertanejo: A Disputa que divide as festas juninas

Todo ano, quando se aproxima o período das festas juninas, uma velha polêmica reaparece nas redes sociais, nos meios de comunicação e nas conversas populares: a contratação de artistas sertanejos para os grandes eventos juninos em vez de cantores e grupos de forró pé de serra. O debate vai além da simples escolha musical. Ele envolve identidade cultural, tradição, mercado do entretenimento e a forma como o poder público investe recursos destinados às festividades.

Os defensores do forró pé de serra argumentam que as festas juninas nasceram e se consolidaram tendo o forró como sua principal expressão musical. Sanfona, zabumba e triângulo tornaram-se símbolos inseparáveis do São João, especialmente no Nordeste brasileiro. Para esses artistas, substituir o forró tradicional por atrações sertanejas significa enfraquecer uma herança cultural construída ao longo de gerações e que ajudou a projetar nomes históricos da música popular brasileira.

A indignação aumenta quando os investimentos públicos são direcionados para cachês milionários de artistas sertanejos, enquanto músicos locais e grupos tradicionais recebem pouco espaço na programação. Muitos forrozeiros afirmam que essa prática contribui para a descaracterização das festas juninas, transformando eventos culturais em grandes shows comerciais sem compromisso com suas raízes históricas.

Por outro lado, gestores públicos e organizadores costumam defender a contratação de artistas sertanejos alegando que esses nomes atraem grandes públicos, geram maior movimentação econômica e ampliam a visibilidade dos eventos. Na lógica do mercado, a popularidade nacional desses artistas seria um fator decisivo para impulsionar o turismo, aumentar a ocupação hoteleira e aquecer o comércio local durante o período festivo.

A questão central, porém, não está necessariamente na presença do sertanejo, mas no equilíbrio da programação. Poucos criticam a participação de artistas de outros gêneros musicais. O que gera insatisfação é quando o forró pé de serra deixa de ocupar o protagonismo em uma festa cuja identidade histórica está diretamente ligada a ele. Para muitos defensores da tradição, o problema não é a diversidade musical, mas a inversão de prioridades.

Essa discussão revela um conflito cada vez mais presente na cultura brasileira: a disputa entre tradição e mercado. Enquanto um lado busca preservar elementos considerados essenciais da identidade junina, o outro aposta em atrações capazes de atender às demandas de um público mais amplo e diversificado.

Talvez a saída esteja na conciliação. As festas juninas podem continuar evoluindo e incorporando diferentes estilos musicais sem abandonar aquilo que lhes dá significado cultural. Valorizar o forró pé de serra, garantir espaço para artistas locais e, ao mesmo tempo, abrir espaço para atrações de outros gêneros pode ser uma forma de preservar a memória sem ignorar as transformações da sociedade.

Afinal, o verdadeiro desafio não é escolher entre forró ou sertanejo. É garantir que a essência das festas juninas não seja esquecida em meio às exigências do espetáculo e do mercado. Quando a tradição perde seu lugar de destaque, a festa continua existindo, mas corre o risco de deixar de representar aquilo que a tornou única.

 

Elson de Belém é Artista e Comunicador Cultural

 

Edição de texto CCPZ

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