Chicote e paraíso
Ivana Maria França de Negri
Este é um pequeno conto que escrevi sobre um anônimo burrinho de carga, sempre servil e obediente, baseando-me em um acontecimento real que aconteceu comigo certa vez.
Vi um carroceiro chicoteando violentamente um burrinho que, exausto, caminhava mancando e lentamente. Notei que uma das patas estava inchada e infeccionada e deveria estar doendo muito. Na época eu era voluntária da Sociedade de Proteção aos Animais e parei o carro emparelhado com a carroça dele e fiz menção de lhe entregar um cartão com o nome de um veterinário e endereço da clínica, que nem era muito longe do local em que estávamos. Pois ele se virou para mim e falou: “cuide da sua vida que da minha cuido eu”. E continuou a chicotear o pobre e submisso animal. Fiquei sem ação com o cartão nas mãos. Ele nem quis pegar, mesmo eu dizendo que era atendimento gratuito, que a entidade pagaria a consulta e tratamento. E lá se foram ele, a carroça e o burrinho... Eis o conto:
Que se lembrasse, desde quando era pouco mais que um potro, sua vida consistia em puxar carroças com cargas pesadas todo santo dia. Não tinha folga nem nos feriados e nem nos finais de semana.
Não tivera sorte com o dono, pessoa grosseira e insensível que não sabia ser amável com as pessoas, muito menos com animais. Apenas se preocupava em transportar o maior número de cargas por dia para amealhar mais dinheiro.
Obedecia humildemente e fazia tudo direitinho para não desagradar o dono.
Quantas e quantas vezes o carroceiro esquecia-se de lhe dar água e o deixava salivando de sede sob o sol escaldante, a garganta seca pela poeira da estrada.
Em certas noites, o homem deixava-o com os arreios, por pura preguiça mesmo, atando-o numa árvore longe do pasto.
Incontáveis vezes foi açoitado só porque o dono estava nervoso com alguma coisa e tinha que descontar em alguém, e sempre era ele o saco de pancadas.
Enquanto jovem, conseguia suportar as cargas e trotava velozmente, mesmo nas subidas íngremes para não ser chicoteado. Mas agora que estava velho e as forças lhe fugindo, não conseguia puxar, como antigamente, as pesadas cargas morro acima.
Naquele dia seu velho corpo fraquejou e os joelhos dobraram-se. O dono, fora de si, urrava: “Vamos, preguiçoso! Isso é hora de descansar?” e começou a espancá-lo sem dó e nem piedade.
O chicote zunia no ar e descia estalando no lombo. E mais e mais chicotadas lanhavam o dorso já gasto e com falhas de pelos. Não conseguia se levantar, as pernas fraquejavam e dobravam novamente. A visão turvou, e, exausto, deitou no chão o corpo franzino e judiado. O carroceiro vendo aquilo, começou a chutar-lhe o rosto e jogou um balde de água fria em sua face.
Mas já não estava mais ali, seu espírito abandonara a velha carcaça. Agora sentia-se leve, revigorado.
Conseguia trotar garbosamente e pastava numa campina muito verde onde havia uma cachoeira de águas límpidas e frescas. Podia correr livremente, sem arreios, sem freios, sem carroças, sem cargas para puxar. E sem chicotes!
Via outros animais livres e vigorosos como ele, trotando e saltitando felizes pelos campos.
Era o paraíso almejado, o céu dos animais!
Teria agora o merecido descanso por toda a eternidade...
Ivana Maria França de Negri é escritora