É preciso saber perder
Ivana Maria França de Negri
A vida é uma sucessão de perdas. Desde o dia em que nascemos até o último de nossas vidas é uma perda atrás da outra.
Tudo começa quando perdemos a quentura e o aconchego do útero de nossa mãe. E logo perdemos o colo para outros irmãozinhos com os quais temos que dividir carinhos e atenção. Perdemos as roupas e sapatos enquanto crescemos e vamos perdendo namorados, amigos, parentes, e até os bichos de estimação.
O nosso candidato perde a eleição, perdemos o lugar num concurso, perdemos o emprego, nosso time perde o campeonato e perdemos a vaga no vestibular.
Ao longo da vida, perdemos dinheiro, a forma física, a elasticidade do corpo, a visão, a audição, os dentes, os cabelos e até a memória.
Quantas vezes perdemos a paciência, o bom-humor, a razão, a consciência e a nossa paz.
Perdemos aquela festa de arromba, perdemos as jóias, perdemos amores, perdemos o rumo, o fio da meada e o bonde da história.
Perdemos os filhos primeiro para os professores da escolinha, depois para os amiguinhos, para os namorados, esposos, enfim, para a vida, quando eles saem do ninho e voam com as próprias asas.
Posso até imaginar o desespero de quem norteia sua vida em função da beleza, como os artistas que se tornam ídolos das multidões. O mito se agiganta e acaba sufocando a pessoa. Por um bom tempo eles esticam a beleza com plásticas e outros recursos. Mas chega um dia que isso não adiantará mais. Alguns se retiram de cena e se escondem para que o público não acompanhe sua deterioração física como a atriz de cinema Greta Garbo, ícone da beleza feminina no seu tempo, que atuou na carreira por vinte anos e ficou outros cinquenta no anonimato e só saía às ruas de vez em quando, com chapéu e óculos escuros para não ser reconhecida. Outros até se suicidam como o mito sexual Marilyn Monroe, para fugir do natural envelhecimento. Agora, com essa onda mundial dos doramas, há muita cobrança pelo físico perfeito e juventude, e artistas não suportam a pressão suicidando-se quando a idade vai passando e a beleza já não se encaixa dentro dos padrões exigidos.
E no final de toda essa série irreversível de perdas, perdemos a própria vida...
Perdas são necessárias para fortificar o espírito, para criar a consciência de que somos finitos no corpo físico e para que aprendamos que não são os bens materiais que devem monopolizar a nossa vida. O corpo é transitório, mas a alma não.
Sai vitorioso desta vida quem aprende a administrar as perdas e a tirar delas as lições para a evolução do espírito. Aceitar essas perdas, desenvolvendo outros objetivos, realizando atividades que causem prazer e bem-estar como abraçar causas sociais, fazer novos amigos, ser solidário, contribuir para um mundo melhor.
Estava pensando no jogo que desclassificou o Brasil nesta Copa. Vi na Internet gente rasgando camisetas e crianças colocando fogo em álbuns da Copa. É preciso ensinar a essas crianças e adolescentes que nesta vida nem sempre se ganha. Pra dizer a verdade, mais se perde do que se ganha. E esses álbuns e camisetas custaram dinheiro dos seus pais. E dinheiro não é fácil ganhar!
Aí reside o grande segredo da vida. Saber perder. Porque ganhar é fácil...
Ivana Maria França de Negri é escritora