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Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Publicada em: 29/06/2026 09:31 -

A democracia cansada: quando o eleitor deixa de acreditar na política

 

Ronaldo Castilho

 

A democracia sempre foi apresentada como a mais sofisticada das formas de organização política. Não porque seja perfeita, mas porque permite que os conflitos da sociedade sejam resolvidos por meio do voto, do debate e da alternância de poder, sem recorrer à violência. Entretanto, nas primeiras décadas do século XXI, um fenômeno tem chamado a atenção de cientistas políticos, sociólogos e estudiosos da democracia em praticamente todos os continentes: a chamada fadiga democrática. Trata-se de um desgaste silencioso, porém profundo, da confiança dos cidadãos nas instituições políticas, nos partidos, nos governantes e, em muitos casos, na própria utilidade do voto.

O Brasil não está imune a esse processo. Pelo contrário. As sucessivas eleições têm registrado números elevados de abstenções, votos brancos e votos nulos, sinalizando que uma parcela significativa da população já não vê na política um instrumento eficaz de transformação da realidade. Ainda que o comparecimento às urnas seja obrigatório para grande parte do eleitorado, cresce o contingente daqueles que simplesmente deixam de votar, preferindo enfrentar as consequências legais a participar do processo democrático.

Essa realidade provoca uma pergunta inquietante: o eleitor ainda acredita na política? A discussão está longe de ser nova. Ainda na Grécia Antiga, o filósofo Aristóteles afirmava que o homem é um "animal político", pois somente vivendo em comunidade seria possível alcançar o bem comum. Para ele, participar da vida pública não era apenas um direito, mas uma obrigação moral. Quem se afastava da política deixava de exercer plenamente sua cidadania.

Séculos depois, o pensador francês Montesquieu sustentou que as instituições somente funcionam quando existe confiança entre governantes e governados. A liberdade política depende do equilíbrio entre os poderes, mas também da participação ativa da sociedade. Sem essa confiança, dizia ele, a própria estrutura democrática começa a perder sustentação.

Jean-Jacques Rousseau foi ainda mais incisivo. Em "O Contrato Social", argumentou que a soberania pertence ao povo e que a legitimidade do Estado depende da participação dos cidadãos. Quando o povo deixa de acreditar que sua vontade será respeitada, rompe-se o pacto social que sustenta a democracia.

Alexis de Tocqueville, ao estudar a democracia norte-americana no século XIX, percebeu que o verdadeiro segredo das democracias sólidas não estava apenas nas leis, mas na participação cotidiana da população. Para ele, a apatia política era um dos maiores riscos para qualquer regime democrático, pois abria espaço para governos cada vez mais distantes da sociedade.

No século XX, Hannah Arendt alertou que o desinteresse pela política cria um terreno fértil para o autoritarismo. Segundo ela, quando os cidadãos abandonam os espaços públicos, outras forças passam a ocupá-los. O vazio político nunca permanece vazio por muito tempo.

Já o sociólogo Zygmunt Bauman observou que a sociedade contemporânea vive uma espécie de liquidez das relações sociais. A confiança tornou-se frágil, as instituições perderam credibilidade e a política passou a ser vista por muitos como incapaz de responder aos desafios da vida cotidiana. O resultado é um cidadão cada vez mais individualista e menos disposto a participar da vida pública.

É justamente nesse ambiente que cresce o número de eleitores que deixam de comparecer às urnas. As estatísticas eleitorais dos últimos pleitos mostram um aumento consistente das abstenções, especialmente nos grandes centros urbanos. Não se trata apenas de dificuldades de locomoção ou problemas pessoais. Em muitos casos, trata-se de uma escolha consciente de quem acredita que "todos são iguais", "nada muda" ou "meu voto não faz diferença".

Entretanto, essa percepção pode produzir um efeito perverso. Quanto menor a participação popular, menor tende a ser a representatividade dos eleitos. Em outras palavras, quando muitos deixam de votar, poucos acabam decidindo o destino de todos. A ausência do eleitor não enfraquece apenas um candidato ou um partido; enfraquece a própria legitimidade da democracia.

No Brasil, quem deixa de votar e não apresenta justificativa precisa regularizar sua situação junto à Justiça Eleitoral. O procedimento tornou-se relativamente simples e pode ser realizado de forma eletrônica, por meio dos serviços disponibilizados pela Justiça Eleitoral. Caso existam débitos, é necessário quitá-los para restabelecer plenamente a situação cadastral do título.

O aspecto curioso é que a multa aplicada ao eleitor faltoso continua extremamente baixa. Seu valor é simbólico, sendo, em muitos casos, inferior ao preço de uma única passagem de ônibus urbano em diversas cidades brasileiras. Na prática, o custo financeiro da ausência é quase irrelevante.

O problema, porém, vai muito além da multa. O eleitor não deixa de votar porque a sanção é pequena. Ele deixa de votar porque muitos perderam a esperança de que a política seja capaz de melhorar suas vidas. Quando promessas se repetem eleição após eleição sem resultados concretos, instala-se um sentimento de impotência coletiva.

Essa fadiga democrática também decorre da percepção de impunidade diante de casos de corrupção, da baixa identificação com os partidos políticos, da excessiva fragmentação partidária, das disputas ideológicas permanentes e da dificuldade dos governos em responder rapidamente às demandas da população. A política passa a ser vista como um espaço de conflito permanente, distante dos problemas reais enfrentados pelas famílias.

No entanto, abandonar a política talvez seja justamente o maior erro que uma sociedade possa cometer. A política continuará existindo, com ou sem a participação daqueles que se afastam dela. A diferença é que, quando os cidadãos deixam de participar, outros ocuparão esse espaço e tomarão decisões em seu lugar.

Também é preciso reconhecer que a responsabilidade pela recuperação da confiança não pertence exclusivamente aos eleitores. Os partidos políticos precisam renovar suas práticas, ampliar a transparência, aproximar-se da sociedade e formar novas lideranças comprometidas com o interesse público. Os governantes devem compreender que credibilidade não se conquista apenas durante as campanhas eleitorais, mas diariamente, por meio de resultados concretos, ética e respeito às instituições.

A fadiga democrática talvez seja um dos maiores desafios do nosso tempo. Ela não se manifesta por meio de tanques nas ruas nem pela suspensão das eleições. Surge de forma silenciosa, quando milhões de cidadãos deixam de acreditar que vale a pena participar. É um processo lento, quase imperceptível, mas capaz de corroer os alicerces da democracia por dentro.

Ainda assim, a história ensina que democracias conseguem se reinventar quando a sociedade decide recuperar o protagonismo. A confiança pública pode ser reconstruída, desde que instituições, representantes e cidadãos compreendam que a democracia não é um mecanismo automático. Ela exige compromisso, responsabilidade e participação contínua.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja se o eleitor ainda acredita na política. A verdadeira questão é saber se a política continua fazendo por merecer a confiança do eleitor. Enquanto essa resposta permanecer incerta, a democracia seguirá enfrentando não apenas o desafio das abstenções, mas o risco muito maior da indiferença coletiva, que transforma o direito de escolher em simples desinteresse pelo próprio destino da sociedade.

Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. Possui licenciatura em História e Geografia, bacharelado em Teologia e Ciência Política, além de MBA em Gestão Pública com Ênfase em Cidades Inteligentes. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

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